Sobre a alquimia moderna que transforma a miséria em números e o cidadão em um item de inventário eleitoral.
Diz a lenda, essa entidade etérea que chamamos de "comunicação oficial", que a fome no Brasil foi erradicada, devidamente empacotada e despachada para o exílio. Olhando para os gráficos coloridos que adornam as apresentações em Brasília, temos a sensação de que o país finalmente sentou-se à mesa, guardanapo de linho ao colo, pronto para o cafezinho. No entanto, há um ruído persistente que as planilhas não conseguem abafar: o estalar de barrigas que ainda roncam, não de falta de comida, mas de uma desnutrição de dignidade. Saímos do Mapa da Fome, dizem eles, mas entramos, definitivamente, no Atlas da Dependência.
É uma proeza estatística digna dos grandes ilusionistas da história. Criamos uma realidade onde 94 milhões de pessoas, quase metade da nação, estão devidamente etiquetadas, carimbadas e processadas no Cadastro Único. É como se tivéssemos transformado o Brasil em um imenso saguão de aeroporto onde o voo para a autonomia foi cancelado indefinidamente, e o que resta aos passageiros é uma ficha de auxílio-alimentação e a promessa de que o teto não cairá sobre suas cabeças, desde que permaneçam sentados e silenciosos.
A contradição é tão flagrante que beira o obsceno. No Piauí, a carteira de trabalho tornou-se um item de colecionador, uma relíquia de um tempo em que o suor se traduzia em construção de patrimônio pessoal, e não em uma transferência digital vinda de algum servidor frio na capital federal. Quando o número de beneficiários de programas assistenciais supera o de empregados com carteira assinada, não estamos diante de uma rede de proteção social, mas de uma arquitetura de contenção. A rede, que deveria ser um trampolim para lançar o indivíduo de volta ao mercado e à vida produtiva, tornou-se uma rede de descanso, onde o balanço é suave, mas o horizonte é inexistente.
Haverá quem diga, com a prontidão dos cínicos, que a fome justifica tudo. E justifica. A fome é a urgência máxima do bicho humano; é o que nos iguala aos animais do passado. Mas o que o poder público parece ter descoberto é que a fome não é apenas uma tragédia humana, é uma oportunidade logística. Se você mantém o estômago do vizinho apenas "não-vazio", você não resolveu o problema dele; você apenas alugou a lealdade de suas vísceras. A transferência direta de renda, quando desacompanhada da emancipação produtiva, deixa de ser política pública para se tornar manutenção de rebanho. É a estética da sobrevivência substituindo a ética da prosperidade.
O indivíduo assistido, por mais que tente, raramente consegue olhar para cima. Seus olhos estão voltados para o calendário, para a data do próximo depósito, para a manutenção do critério de pobreza que lhe garante o benefício. Cria-se, assim, uma geração de estrategistas da escassez. Pessoas que, em vez de planejarem como abrir um negócio ou subir na carreira, planejam como não ultrapassar a linha de renda que as excluiria do auxílio. É o triunfo da mediocridade institucionalizada sobre a ambição humana.
A lucidez nos obriga a perguntar: a quem interessa essa supermáquina de aquisição de votos? Se o país prosperasse de fato, se as fábricas fumaçassem, o empreendedorismo reinasse e o comércio transbordasse, o Cadastro Único seria um arquivo morto. Mas um cidadão independente é um cidadão perigoso; ele questiona, ele exige, ele troca de representante com a facilidade de quem troca de camisa. Já o dependente é um cidadão grato. E a gratidão, na política, é um sentimento que se compra com o dinheiro do próprio agraciado. É o sequestro da cidadania travestido de suposta "caridade cristã", financiado por impostos que pesam justamente no consumo de quem ainda tenta trabalhar.
Estamos vivendo um paradoxo existencial. Celebramos a saída do mapa da fome enquanto estatizamos a pobreza. O governo não quer que você morra de fome, mas parece ter um medo pânico de que você não precise mais dele. A autonomia do indivíduo é a falência do assistencialismo eleitoreiro. Enquanto o Piauí, e tantos outros estados, carregar mais cartões magnéticos de auxílio do que contratos de trabalho, continuaremos sendo uma nação de súditos alimentados, mas jamais de cidadãos livres. A mesa está posta, sim. Mas as cadeiras têm algemas invisíveis que prendem o ocupante ao chão de uma economia de subsistência tutelada.
É preciso coragem para admitir que o assistencialismo sem porta de saída é apenas um cárcere com Wi-Fi. A fome física pode ter diminuído, mas a fome de futuro no Brasil nunca foi tão voraz. E essa fome não se sacia com transferências bancárias, mas com a oportunidade real de não ser um número num banco de dados governamental. A verdadeira política social não é aquela que orgulhosamente exibe quantos novos beneficiários incluiu, mas aquela que, com serenidade, anuncia quantos deixaram de precisar dela porque agora caminham com as próprias pernas.
A mudança começa quando paramos de enxergar o Estado como um provedor místico e passamos a vê-lo como o gestor (muitas vezes incompetente) do nosso próprio dinheiro. Na sua esfera individual, busque a autonomia como quem busca oxigênio; não permita que a sua segurança dependa da canetada de quem precisa do seu voto. Coletivamente, precisamos exigir que os programas sociais tenham cláusulas de emancipação e indicadores de saída, e não apenas de entrada. A provocação é simples e brutal: você prefere um país que te dê o peixe ou um país onde você não seja multado, tributado e impedido pela burocracia de comprar sua própria vara de pesca? Escolha a dignidade do trabalho sobre a paz do curral, enquanto ainda lhe resta o direito à escolha.